Harry Dean Stanton



      O filme Lucky é uma versão moderna e muito americana de Os Morangos Silvestres de Ingmar Bergman. É preciso reconciliarmo-nos com a vida antes de morrer e, a vida são todas as realidades que vivemos: os lugares, a época, o que fizemos, a religião, a filosofia na vida, as esperanças, as desilusões, tudo até ao sorriso final. Como diria Leonard Cohen "envelhecer é indigno, mas temos que viver essa realidade com a dignidade possível." Harry Dean Stanton colou tudo isso na melodia Red River Valley. Um filme que me atropelou na estrada, ao quilómetro 60 anos.

Hans Børli - Escrevendo poesia


De todo, não: não é difícil escrever poesia –
é impossível.
De contrário, pensas que teria persistido nisto
por mais de 40 anos?

Tenta, tenta só
pôr asas numa pedra, tenta
seguir o rasto de um pássaro
no ar.

Hans Børli - Depois de Auschwitz


É difícil
olhar os próprios olhos
depois do que aconteceu
em Auschwitz.
Em Hiroshima.
Em Song My –

Mas não voltes o espelho.

Não penses
que aquele inferno teria sido possível
sem tu e eu.

      O poeta nasceu em Eidskog, sudeste da Noruega. Faleceu com 71 anos. De dia exerceu a profissão de lenhador e à noite, enquanto os outros madeireiros descansavam, escrevia poesia.

Knut Ødegård - O Padre


O Tio Knut era padre.
Era um homem prático, mas para ele
o Latim era Grego.
Morreu depois da reforma, estava
a escavar o local para a sua casa nova
quando o coração deu de si.

Mais um electricista
que um pregador, começava sempre a homilia
dizendo: "Não sou muito de discursos"
e quanto a isso estava certo.

Realmente não tinha muito a ensinar
aos paroquianos, eles tinham seus próprios problemas
com os nascimentos, o amor, com as mortes,
e ele não possuía palavras para tais coisas.

Mas aprendera como consertar
fios eléctricos e visitava as gentes em suas casas
e reparava curtos-circuitos e caixas
de fusíveis com defeito, atarraxava lâmpadas no sítio

e onde quer que ele tivesse estado, havia luz.

Nikola Madzirov - Era Primavera

Era primavera quando o invasor
queimou a escritura do terreno onde apanhávamos pássaros,
insectos coloridos, borboletas
apenas existentes em velhos compêndios de biologia.

Muitas coisas mudaram o mundo
desde então, o mundo mudou muita coisa em nós.

      O poeta nasceu em Maio de 1973 em Strumica, República Macedónica, numa família de refugiados da guerra dos Balcãs.

Tangled Up in Blue: Deciphering a Bob Dylan Masterpiece




      Um amigo, já antigo, para me retribuir um favor, ofereceu-me o 2º volume com a tradução bilingue em Português das canções do velho Dylan. Confesso que são as que menos conheço. Comecei por Tangeled up in blue do álbum Blood on Tracks e acho que vou demorar 10 anos para acabar o livro. Nesta canção, ando, vai para uma semana. Uma obra de arte no que tem de diferente é que nunca se alcança o todo. Vale, nos tempos que correm, os novos meios - que confesso, nos fizeram tanta falta quando éramos jovens - para fazer a compreensão das lyrics. Excelente o trabalho neste video e feliz quem vive neste tempo. 

Paolo Guido







Quem pinta, assim? Porque se pinta, assim?

Valerio Magrelli -


E se as voltas de fechadura
não acabassem nunca?
e se tivesse de ficar toda a vida
aqui fora, a dar voltas à chave?
Faço a cópia das minhas chaves
faço a cópia das minhas cópias
o que gasto para as multiplicar
serve para tirar a cada uma o seu valor
o meu Valério. No perfil dos versos
reproduzo o recorte
dentado das chaves.

    O poeta nasceu em Roma, em 1957.

Meir Wieseltier - Por exemplo, o Inverno


O inverno da cidade desperto
não traz consigo desfolhamento. Amarela
a luz nas janelas. Um vento viaja
pela rua Dizengoff,
junto a uma rapariga que caminha
com amor entre as pernas, faz duas horas
com amor entre as pernas. Sua mãe
dizia: levei-te nove meses sob o coração.
Assim há já duas horas. Também do outro lado da via caminha
gente bela, praticando belas accções. Por exemplo,
Meir Wieseltier arranca um versículo da cabeça e ensina-o aos viandantes
o odor de meu filho é como o odor do campo, The smell of my son is like
the smell of the field
de uma língua a outra passa o forte aroma.

      O poeta nasceu em Moscovo em 1941. Chegou a Israel com sua família em 1949, após dois anos de errância com sua mãe pela Polónia, Alemanha e França. O pai havia sido morto ao serviço do Exército Vermelho em Leningrado. Meir Wieseltier vive em Tel-Aviv desde 1955. Wieseltier é o poeta da realidade crua, cruel, por vezes trivial, sem romantismo, realidade que vê encarnada na cidade de Tel-Aviv, uma cidade feia, brutal, preguiçosa, sensual, marítima, que se contrapõe a Jerusalém, a cidade santa, espiritual. Wieseltier assume por vezes o papel de um moralista que procura valores no meio de caos, apesar da sua voz ser alternadamente anárquica e envolvida, sarcástica e lírica.

      Notas de João Luís Barreto Guimarães

Brian Patten - Uma Folha de Erva


Pedes-me um poema.
Ofereço-te uma folha de erva.
Dizes que não chega.
Pedes-me um poema.

Eu digo que esta folha de erva basta.
Vestiu-se de orvalho.
É mais imediata
Do que alguma imagem minha.

Dizes que não é um poema.
É uma simples folha de erva e a erva
Não é suficientemente boa.
Ofereço-te uma folha de erva.

Estás indignada.
Dizes que é fácil oferecer uma folha de erva.
Que é absurdo.
Qualquer um pode oferecer uma folha de erva.

Pedes-me um poema.
E então escrevo uma tragédia àcerca
De como uma folha de erva
Se torna cada vez mais difícil de oferecer.

E de como quanto mais envelheces
Uma folha de erva
Se torna mais difícil de aceitar.

Beethoven - Concerto for Violin and Orchestra in D major, Op. 61 by Hilary Hahn



01. Allegro ma non troppo
02. Larghetto
03. Rondo, Allegro



      Beethoven já havia composto várias peças para violino e orquestra. Em algum momento entre 1790 e 92, antes da sua - digamos - maturidade musical, ele começou um Concerto para violino em Do, do qual apenas um fragmento do primeiro movimento sobrevive. Se o trabalho, ou mesmo o primeiro movimento, foi concluído, não é conhecido. No entanto, mesmo que completo, não foi tocado nem publicado. Mais tarde, ainda na década de 1790, Beethoven completou dois Romances para violino - primeiro o romance em Fa e depois o romance em Sol.
      Todos estes trabalhos mostram uma forte influência da escola francesa de violino, exemplificada por violinistas da época como Giovanni Battista Viotti, Pierre Rode e Rodolphe Kreutzer. Os dois Romances, por exemplo, estão compostos num estilo semelhante aos movimentos lentos de concertos de Viotti. Assim, esta influência também pode ser observada neste Concerto Re maior; a abertura "marcial" com o ritmo dos timpani segue o estilo da música francesa na época, enquanto a prevalência de figuras em sextas quebradas e oitavas quebradas se assemelha muito a elementos de composições de Kreutzer e Viotti.

      in, Wikipedia, com tradução caseira.

Toshio Ebine



No dia em que descobri a primeira cor do arco íris não mais descansei. 
Maravilhado, não parei depois da sétima. 

Cecília Meireles - É preciso não esquecer nada


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos connosco, pois o resto não nos pertence.

Johnny Cash & The Carter Family -We're You There, When They Crucified My Lord




      This is history. Johnny Cash joins The Carter Family for this 1962 Performance of a Classic Gospel Song, June Carter is there who later became his second wife. Many people say Dylan gave an important contribution to change the US popular music. The Carte family did it before in a different way. Sometimes memory is golden (even in black & white) beauty.

      Lyrics:

Were you there when they crucified my Lord?
Were you there when they crucified my Lord?
Oh, sometimes it causes me to tremble, tremble, tremble
Were you there when they crucified my Lord?

Were you there when they nailed him to the cross?
Were you there when they nailed him to the cross?
Oh, sometimes it causes me to tremble, tremble, tremble
Were you there when they nailed him to the cross?

Were you there when they laid him in the tomb?
Were you there when they laid him in the tomb?
Oh, sometimes it causes me to tremble, tremble, tremble
Were you there when they laid him in the tomb?

Were you there when the stone was rolled away?
Were you there when the stone was rolled away?
Oh, sometimes it causes me to tremble, tremble, tremble
Were you there when the stone was rolled away?

Daniel Hevier - Terra de gelo


A ideia
de que existe algures
um país como a Islândia

ajuda-me a sobreviver.

      Daniel Hevier é um dos poetas eslovacos mais conhecidos da sua geração. Nasceu em Bratislava, em 1955.

Daniel Hevier - Hamlet, louco como sempre


O Computador J.S. Bach
compõe música
para acompanhar anúncios televisivos
de poltronas anti-obesidade.

O Computador Leonardo
está a pintar o original mil e um
da Mona Lisa
enviando encomendas para os primeiros milionários
da lista de inscritos.

O Computador Hemingway
escreve memórias
para políticos arruinados.

O Computador Napoleão
está a preparar
materiais para uma nova variante
de guerra psicadélica.

O Computador Galileo
está a retraír a sua teoria
de um universo elástico.

O Computador Seneca
está a tratar com a ONU da questão das mulheres
e dos suicídios em massa
das baleias.

O Computador Adão
e o Computador Eva
estão a fazer novos computadores.

O Computador Hamlet
encravou,
e repete incessantemente
uma estranha pergunta sem sentido.

Daniel Hevier - Com o motor desligado


Ao atravessar a fronteira
entre
beleza e banalidade
sobressai um homem
cansado de inventar poemas.

Não tem nada a declarar
com a excepção de alguma
trivialidade inútil.

Daniel Hevier - O homem deu nome a todos os animais


O homem deu nome a todos os animais,
canta Bob Dylan
e eu tento nomear
tudo quanto tenho em mim:
todos esses
tigres,
lobos,
chacais,
serpentes,
gaviões,
pôneis,
babuínos,
crocodilos,
lagartos,
manadas de cavalos,
pombos.

Toda essa menagerie
conhecida como
o registo quase humano.

Jeff Faust











      Há quem lhe chame o pintor Miró da Califórnia. Ele diz "I think that I’ve trained my mind, and perhaps not intentionally, to…wander in various ways and be open to using what I see or think. A bowl can spark all sorts of ideas, many a painting has been done after picking up a stick."

Herman de Coninck - A Rapariga


Tu própria, que podes ter a noção e ao mesmo tempo
o atrevimento de simplesmente expor
de vez em quando uma opinião
ou um seio: quando começa isso,

e no fundo quando acaba? As mulheres
são feitas de raparigas, aos quarenta
ainda deitam a língua de fora como aos quinze,
ficam cada vez mais jovens,

não sabem não seduzir. Como a poesia:
um gato que prudentemente caminha sobre as teclas
de um piano e olha para trás:
ouviste? viste-me?

Ah, o ar jovem das raparigas de quarenta,
como umas vezes querem, e outras não,
mas afinal sempre, se repararmos bem.
Onde estão os bons velhos tempos? Estão aqui, esses tempos.

      Nuno Júdice traduziu uma colectânea com o título “Os Hectares da Memória”. Herman de Coninck foi um dos mais importantes poetas flamengos do pós-guerra, por possuir uma notável capacidade de apreender do quotidiano aparentemente estéril e banal, instantes sagazmente luminosos, através do uso de uma linguagem com notável capacidade discursiva, onde o humor não é o menor dos seus recursos. Coninck morreu subitamente numa rua de Lisboa, em 1997, a caminho de uma reunião de poetas.

Franz Schubert - Der Lindenbaum by Jonas Kaufmann




    A Tília

Am Brunnen vor dem Tore
Junto ao poço do portão
da steht ein Lindenbaum
ergue-se uma tília
Ich träumt´ in seinem Schatten
Junto a ela embalei eu nas suas sombras
so manchen süßen Traum.
tantos sonhos doces.

Ich schnitt in seine Rinde
No seu tronco eu gravei
so manches liebe Wort
muitas palavras de amor
Es zog in Freud und Leide
Na dor e na alegria
zu ihm mich immer fort.
para ela sempre corri.

Ich musst` auch heute wandern
Hoje passei por ela
vorbei in tiefer Nacht
no meio da noite profunda
Da hab ich noch im Dunkeln
E mesmo na escuridão
die Augen zugemacht
tive que fechar os olhos.

Und seine Zweige rauschten
E os seus galhos sussurravam
als riefen sie mir zu
como se me chamassem:
"Komm her zu mir Geselle,
"Vem até aqui, amigo,
Ich wendete mich nicht".
aqui encontrarás a paz".

Nun bin ich manche Stunde 
Agora estou a muitas horas
entfernt von jenem Ort
de distância daquele lugar
Und immer hör ich rauschen:
mas continuo a ouvir o sussurro:
"Du fändest Ruhe dort!"
"Aqui tu encontrarás a paz!"

      A tradução é caseira, um pouco com a ajuda de outras traduções. A tília na Alemanha e na Áustria tem sido ao longo da história, a árvore do amor: o seu perfume, o zumbido das abelhas, a riqueza dos produtos dela provenientes, a casca e as flores tinham poderes sedativos e narcóticos, e ao mel eram atribuídas virtudes terapêuticas e aromáticas. Decerto, Schubert também encontrou aqui um pouco de paz.

      Nota: Por ser uma árvore tão serena, aromática e bela muitas instituições começaram a plantá-la em redor dos sues edifícios: primeiro os hospitais, depois as escolas e até os tribunais.

Rikardo Arregi - Canta-me um dos Lieder de Schubert


Canta-me um dos Lieder de Schubert,
um dos mais tristes,
Tränenregen, ou Der Lindenbaum,
pleno de florestas desamparadas,
inchado de rios transparentes,
transbordando de amores impossíveis.

Toca ao piano suavemente
e canta-me o mais triste Lied.
Abre espaço para o pobre Franz
junto ao fogo.

E se te acontecer cantares a palavra Herz,
certifica-te que lhe dás expressão, a modulação que requer,
pensa que somos Românticos
circa mil oitocentos e vinte e sete
e que um de nós tem uma doença incurável e impronunciável.
Porque poucos irão compreender, alguma vez
a nossa coragem, a nossa beleza.

Carlos Queiroz - Canção grata

Por tudo o que me deste: — Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como um louco…
Obrigado, obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
— Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado…
Sem ironia, amor: — Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!

    O 'leftover' do amor.

Arquivo do blogue