Ricardo Reis - Para ser grande, sê inteiro: nada

Para ser grande, sê inteiro: nada
     Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
     No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
     Brilha, porque alta vive.

Soneto "Língua Portuguesa" de Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela.


Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

      “Última flor do Lácio, inculta e bela”, refere-se ao idioma Português como a última língua derivada do Latim Vulgar falado no Lácio, uma região italiana.
      Também, o termo "inculta", refere-se ao Latim Vulgar falado por soldados, camponeses e camadas populares. Era diferente do Latim Clássico, empregado pelas classes superiores.

Morgan Weistling












A culpa do antigo pomar de macieiras.

Manuel de Freitas

O tempo, esse pequeno escultor,
prolongou-te os gestos
até à exaustão, ao limite do escárnio,
ao inoportuno reclame daquele
que vai morrer e não morre
e fala demasiado sobre o silêncio do seu grito.

Paciência. Não poderia ter sido de outra
maneira. Há uma infância parada,
onde o cadáver de deus
nada quer dizer. Sim, tem chovido muito.
Mas que saberá destas mesmas horas
o gato negro que a tua mão já não encontra?

Deténs-te, usas palavras vãs, despedes-te.
Sabes que foi sempre assim.


      Versos-soco de um amigo.

Donovan - Sunny Goodge Street



On the firefly platform on sunny Goodge Street
Violent hash-smoker shook a chocolate machine
Involved in an eating scene.

Smashing into neon streets in their stillness
Smearing their eyes on the crazy Kali goddess
Listenin' to sounds of Mingus mellow fantastic.

 My, my, they sigh! My, my, they sigh!

In dull house rooms with coloured lights swingin'
Strange music boxes sadly tinklin'
Drink in the sun shining all around you.

The magician, he sparkles in satin and velvet,
You gaze at his splendour with eyes you've not used yet.
I tell you his name is Love, Love, Love.


       O som inicial do violoncelo surge como a cobra que vai pondo ovos no colorido dos versos. Hoje, peguei na guitarra para relembrar esta melodia que descrevia a vida dos hash-smokers nos 60's. 

Manuel António Pina

Eu não procuro nada em ti,
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.

Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.

      O poeta e as margens.

Jorge Barbosa, poeta de Cabo Verde






Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.
Nem setas venenosas vindas no ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.

Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de voo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.

E a vegetação
cuja sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastadas para cá
pelas fúrias dos temporais.

Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada

e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensando n'El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.


    Jorge Barbosa, poeta de Cabo Verde.

Lowell Herrero











      Pintor da costa Oeste, nasceu na California no começo do século XX e pintou telas coloridas com realidades que lhe eram próximas.

Isabel Meyrelles

Tu já me arrumaste no armário dos restos
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?

Fernando Pinto do Amaral

Podes ficar aqui?

Não vás embora,
precisarei de mais alguns minutos,
horas, dias, semanas, meses, anos

a eternidade para te esquecer.

Sharon Shannon - The Burst Mattress



      Os jigs e os reels desta lenda da música irlandesa, Sharon Shannon. Discreta, e parecendo por vezes tímida, consegue igualar a alegria do vento, do fogo do inverno, das águas dos montes, dos pássaros livres, dos pomares de County Clare e da rapariga de Galway.  

Daniel Faria

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens.

      Sempre que leio um poema de Daniel Faria que não conheço, tudo pára em mim. E por um tempo longo.

Santiago Carbonell





José Miguel Silva

Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.


      A poesia não se encontra no terrorismo diário, mas naquilo que torna o dia sacro. E não é assim tão difícil.

Cecília Meireles

Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí.

Show of Hands - 'The Lads in their Hundreds'



Alfred Edward Housman escreveu o poema-documento que faz parte do livro A Shropshire Lad. A melodia é de Show of Hands. Apesar de ser escrito muito antes da 1ª Guerra Mundial fica bem no contexto.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.


Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

      O verso para um epitáfio perfeito "Outros amarão as coisas que eu amei".

A ternura que sucede



Talvez ninguém saiba
se a ternura é causa
ou consequência
de um amor

se o antecede
ou antes sucede

porque mesmo antecedendo
sucede sempre
antecede-se

a ternura é o amor
em estado flagrante.

in, xilre

      A foto é de Laura Makabresku.

Thor Lindeneg









David Mourão-Ferreira

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava…


Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão.
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy.
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança.

in, Infinito Pessoal

      Nuno Júdice sugeriu este poema como o melhor poema de amor da literatura portuguesa. 

Augusto Gil

No teu pescoço esbelto de morena
Usas, às vezes, um decote em vê.

Essa letra, porém, é tão pequena
Que mal se lê,
Que mostra apenas, dentre o que escondeu,
Uma nesga inestética e minúscula.

Ora um colo como o teu…
Merece letra maiúscula.

Iris DeMent - Sweet Is The Melody



        Quando eu era mais jovem, a voz de Iris DeMent caiu no meu cesto de cerejas e, ao conhecer a cerejeira, tive dificuldade em descansar noutro lugar. 

Boris Balahontsev












La natura è rivelazione di Dio, l’arte è la rivelazione dell’uomo. (Henry Wadwoth Longfellow)

Ana Paula Inácio

amanhã vou comprar umas calças vermelhas
porque não tenho rigorosamente nada a perder:
contei, um a um, todos os degraus
sei quantas voltas dei à chave,
sublinhei as frases importantes,
aparei os cedros
fechei em código toda a escrita.

Amanhã comprarei calças vermelhas
fixarei o calendário agrícola
afiarei as facas
ensaiarei um número
abrirei um livro na mesma página
descobrirei alguma pista.

Ana Paula Inácio

queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos

Ana Luísa Amaral

Se eu como ele, o meu amor
tão anterior assim ao próprio amor,
o cajado e a pele por simbólica mão,
e o perfume que em mim,
então,

talvez eu te fizesse
sentir sem que o soubesse,
ao certo,
a chamamento à noite, falar
muito de noite e nela adormecer.
Longuíssima e final. Mas nova sempre.
Reencarnando os tempos e as datas.

De memórias tão curtas. E do fim
mais final do esquecimento.
Ter encontrado há pouco coisa dada
há quantos anos? Trinta?
«Não te esqueças de mim.».


      Os afectos, a que o medo da solidão nos obriga.

Pierre Marcel




Os frutos.

Karan Casey - The Jute-Mill Song



Oh dear me, the mill runs fast
The poor wee shifters cannae get their rest
Shifting bobbins course and fine
Fairly make you work for your ten and nine.

Oh dear me, I wish the day was done
Running up and down the pass is no fun
Shifting, piecing, spinning warp, weft and twine
Feed and clothe your bairnes off a ten and nine.

Oh dear me, the world is ill divided
Them that works the hardest are the least provided
But I'm maun bide contented, dark days are fine
There's no much pleasure living off a ten and nine.

      Mary Brookbank, autora desta canção-documento, nasceu em 1897 e com a idade de 13 anos começou a trabalhar numa fábrica em Dundee (hoje, a 4ª maior cidade escocesa), que na época era o centro mundial da próspera industria têxtil. Cantora, escritora e poeta foi também uma importante activista fabril que lutou por melhorar as condições de trabalho que a reduziam, a si e às suas colegas, à escravidão e à miséria.

Alice Vieira

até pode ser que nem gostes muito destas palavras
nem de mim agora que os meus gestos
são tão diferentes
agora que recordas tanta coisa que eu esqueci
e ainda bem ninguém pode viver
com o peso do que ficou para trás
agora que os livros as canções as laranjeiras
ficaram para sempre naquele cenário de primavera
que fazia de nós todos o garantiam
presas tão fáceis

pressinto que hás-de culpar-me sempre
pelos anos que perdemos por becos ruas avenidas
esquecendo à toa aquilo
que só um ao outro deveríamos ter ensinado

talvez até tenhas razão mas eu chegara
àquele lugar da vida onde só se pode
amar para sempre e sem remédio
e de um dia para o outro a minha boca
desaprendeu disciplinadamente o sabor da tua
e os teus passos a tua voz o céu de paris
a janela sobre os telhados os domingos de sol
atravessaram as mais arrastadas fronteiras
e estabeleceram os seus limites do lado de lá
de todas as madrugadas que eram nossas

houve mesmo um tempo desculpa em que esqueci
as cartas os cigarros as fugas os recados
as canções as camélias o jardim
onde me esperavas às nove da manhã
a velha que nos olhava abanando a cabeça
entre estátuas decepadas e gatos vadios

talvez um dia quem sabe o destino
volte a ter novos contornos e nos olhe de frente
e ainda sobre tempo para reaprender a soletrar correctamente
todas as palavras que admitiam ter nascido
do teu corpo da tua voz do sabor da tua boca
tempo para povoar de novos sons os velhos discos de vinil
e sonhar com mundos à espera de serem salvos
pelas nossas palavras

tempo para nos olharmos e encontrarmos
sem remorsos
a maneira de nos perdermos de novo nos caminhos
que levam ao coração absoluto da terra

talvez um dia quem sabe eu volte
a faltar às aulas para esperar por ti

Hilda Hilst

Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia –
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- é lua nova –
e revestida de luz te volto a ver.

     É bom abrir a fenda da possibilidade.

Alberto Pancorbo





É bom ter romãs no subconsciente. As romãs alimentam os sonhos.

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