Foto já antiga



Menino austríaco recebe sapatos novos 
durante a II Guerra Mundial.

Fiama Hasse Pais Brandão - Metafísica

Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.

Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo das flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.

     É preciso merecermos a Criação, Sra. Fiama.

Offret: Where is thy halo?



      O final deste filme é brilhante! Nas cenas iniciais, Alexander conta ao filho a história de um monge que rega uma árvore morta durante anos até que de repente ficou de novo cheia de folhas. Então, ambos plantaram uma árvore morta.
     Nesta cena final, vemos o filho de Alexandre a regar a sua árvore morta e, quando a câmara se move para cima e pára na cruta vazia da árvore, o reflexo da luz solar nas ondas do mar dá-nos a impressão de que as folhas se movem suavemente ao vento. É uma cena incrível!
     Estão lá, também, o leite necessário aos mamíferos, o canto que nos une, a industrialização, mas sobretudo as paralelas da estrada que não unem, porém, permitem a junção no Infinito. 

Primo Levi - Torre



      A Torre do Carbureto, que surge no meio da Buna e cujo cume raramente se vê no meio do nevoeiro, fomos nós que a construímos. Os seus tijolos foram chamados Ziegel, briques, tegula, cegli, kamenny, bricks, téglak, e foram cimentados pelo ódio; o ódio e a discórdia, como na Torre de Babel, e é assim que a chamamos: Babelturm, Bobelturm; e odiamos nela o sonho demencial de grandeza dos nossos patrões, o seu desprezo por Deus e pelos homens, por nós homens.

      E ainda hoje, como no conto antigo, nós todos sentimos, e os próprios Alemães sentem, que uma maldição, não transcendente e divina, mas imanente e histórica, paira sobre essa construção provocatória, alicerçada na confusão das linguagens e erigida a desafiar o céu como uma blasfémia de pedra.

      in, Atalhos de Campo

Alicja Słaboń Urbaniak







A pintora é polaca. O minimalismo é urbano.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Epidauro

      O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é:

trazida à luz
trazida à liberdade da luz
trazida ao espanto da luz

      Eis-me vestida de sol e de silêncio. Gritei para destruir o Minotauro e o palácio. Gritei para destruir a sombra azul do Minotauro. Porque ele é insaciável. Ele come dia após dia os anos da nossa vida. Bebe o sacrifício sangrento dos nossos dias. Come o sabor do nosso pão a alegria do nosso mar. Pode ser que tome a forma de um polvo como nos vasos de Cnossos. Então dirá que é o abismo do mar e a multiplicidade do real. Então dirá que é duplo. Que pode tornar-se pedra com a pedra alga com a alga. Que pode dobrar-se que pode desdobrar-se. Que os seus braços rodeiam. Que é circular. Mas de súbito verás que é um homem que trás em si próprio a violência do toiro.

      Só poderás ser liberta aqui na manhã d'Epidauro. Onde o ar toca o teu rosto para te reconhecer e a doçura da luz te parece imortal. A tua voz subirá sozinha as escadas de pedra pálida. E ao teu encontro regressará a teoria ordenada das sílabas - portadoras limpas da serenidade.

      in, Geografia

Tonino Guerra

Vinte dias atrás meti uma rosa no copo
perto da janela em cima da mesinha.
Quando reparei que as folhas
perdiam o vigor
sentei-me diante do copo para ver a rosa morrer.

Esperei um dia e uma noite.

A primeira pétala desprendeu-se às nove da manhã
e deixei que caísse em minhas mãos.
Nunca tinha estado ao leito de morte de um moribundo
nem quando a minha mãe morreu, 
pois então estava de pé, ao longe, no fundo da rua.

in, O Mel - Canto trigésimo segundo

Pentangle - Willy O Winsbury



The king has been a prisoner
And a prisoner long in Spain

And Willie of the Winsbury
Has lain long with his daughter at home

"What ails you, what ails you, my daughter Janet
Why you look so pale and wan?
Oh, have you had any sore sickness
Or yet been sleeping with a man?"

"I have not had any sore sickness
Nor yet been sleeping with a man
It is for you, my 
father dear
For biding so long in Spain."

"Cast off, cast off your berry-brown gown
You stand naked upon the stone

That I may know you by your shape
If you be a maiden or no."


And she's cast off her berry-brown gown
She stood naked upon the stone
Her apron was low and her haunches were round
Her face was pale and wan

"Oh, was it with a lord or a duke or a knight
Or a man of birth and fame
Or was it with one of my serving men
That's lately come out of Spain?"



      "Willy o'Winsbury" is a ballad, a folksong from the middle ages performed by a minstrel as a dancing song. This particular tune is a traditional Scottish ballad thought to be from sometime before 1775. This is one of several variations of the original ballad, recorded in 1973 by Pentangle.

      The ballad is the story of a girl namd Janet who’s father, a king, returns to Spain only to learn that she’s pregnant. He learns that it was the doing of Willy o' Winsbury and threatens to hang him. However, when he sees how beautiful Willy is, he forgives him and instead asks him to marry Janet.

      It is thought that this ballad may be based on James V’s courtship of and marriage to Madeleine de Valois of France in which he comes to see her in diguise and instead meets the princess who falls in love with him.

      Francis James Child  in, The English and Scottish Popular Ballads



Anne Briggs in the same tune.

Carla Diacov

você que chega da padaria
e traz pão e salame e o queijo de nome impronunciável
você que diz todas as árvores do caminho
você que diz
com tanto carinho com toda propriedade
todos os fogos do caminho você
que toca a maçaneta aprisionando o teu próprio rosto
você que põe a toalha com o bordado para baixo
canta a música inventada puxa o meu braço e
a minha dança torta você que
apanha a faca e os copinhos você

que não sabe o que eu fiz enquanto você chegava

Eucanaã Ferraz - Graça

Não saberia dizer a hora
em que me desfizera de tudo o que não era teu,

quando cada coisa se deixou cobrir
por tua presença sem margens

e deixou de haver um lado
que fosse fora de ti.


   para A.

Alex Alemany








O que sugerem os conteúdos? Olhar sereno, afectos e posse.

Daniel Faria

Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta

Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo

Só no fim da paisagem estou de pé como um para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita

Daniel Faria

A abelha também morre de deixar
de corola em corola a raiz.

Salve Regina - Benedictine Monks of Santo Domingo de Silos




      A autoria da oração é atribuída ao monge Hermano Contracto, que a teria escrito por volta de 1050, no mosteiro de Reichenau, no Sacro Império Romano-Germânico. Naquela época, a Europa central passava por calamidades naturais, epidemias, miséria, fome e a ameaça contínua dos povos nómadas do Leste, que invadiam os povoados, saqueando-os e matando.
      Frei Contracto nascera raquítico e disforme e, na idade adulta, andava e escrevia com dificuldade. Foi nesta situação que criou esta prece, mesclando sofrimento e esperança.
      Segundo a crença, quando nasceu e constataram o raquitismo e má-formação do bebé, sua mãe, Miltreed, consagrou-o no leito a Maria, sendo ele educado na devoção a ela. E, anos mais tarde, foi levado de liteira, por ser deficiente físico, até Reichenau, onde, com o tempo, chegou a ser mestre dos noviços.
      Quando veio a ser conhecida pelos fiéis, a "Salve Rainha" (em latim: "Salve Regina") teve um sucesso enorme, e logo era rezada e cantada em muitos locais. Um século mais tarde, ela foi cantada também na Catedral de Espira, por ocasião de um encontro de personalidades importantes, entre elas, a do imperador Conrado III e São Bernardo, conhecido como o "cantor da Virgem Maria", ele que foi um dos primeiros a chamá-la de "Nossa Senhora". Dizem que foi nesse dia e lugar que, ao concluir o canto da "Salve Rainha", cujas últimas palavras eram "mostrai-nos Jesus, o bendito fruto do vosso ventre", no silêncio que se seguiu, São Bernardo que gritou sozinho no meio da catedral: "Ó clemente, ó piedosa, ó doce e sempre Virgem Maria"... E, a partir dessa data, estas palavras foram incorporadas à "Salve Rainha" original.

      in, Wikipedia

Daniel Faria

Guarda a manhã  
Tudo o mais se pode tresmalhar 

Porque tu és o meio da manhã 
O ponto mais alto da luz 
Em explosão.

      O tempo do Daniel é o oitavo dia da semana, a manhã que rompe o tempo circunscrito. Foi nela que morreu com 28 anos.

      Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971. Frequentou o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa - Porto, tendo defendido a tese de licenciatura em 1996. No Seminário e na Faculdade de Teologia criou gosto por entender a poesia e dialogar com a expressão contemporânea. Licenciou-se em Estudos Portugueses na faculdade de Letras da Universidade do Porto. Durante esse período (1994 - 1998) a opção monástica criava solidez.
      A partir de 1990, e durante vários anos, esteve ligado à paróquia de Santa Marinha de Fornos, Marco de Canaveses. Aí demonstrou o seu enorme potencial de sensibilidade criativa encenando, com poucos recursos, As Artimanhas de Scapan e o Auto da Barca do Inferno. Faleceu a 9 de Junho de 1999 quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga.

Please Please Me - MonaLisa Twins



A alegria de participar na Criação. Os The Beatles e as novas gerações.

Daniel Faria

Ela sorveu-me o sangue, curou-me a boca,
Espetou-me um anzol na língua e puxou-me
As palavras
Foi então que pensei que ia morrer
Afogado.

Assemelhei-me a um xilofone de silêncio
A um estrondo muito forte que só se ouvia bem em silêncio.
Gritei: então canta!
Ela pegou a minha tristeza e começou a dobar.

    É, assim, uma musa.

Daniel Faria

Dinamitei depois tudo o que em mim tinha forma de aquário
Um aquário sem nada dentro dele, dinamitei de vazio
Aquilo que na transparência tinha material explosivo
Uma força concreta, a capacidade de um cenário
Devastado

E dinamitei o vazio e encontrei um peso
Humano que não se afundava:
Era um milagre como Lázaro vindo para fora!
Era um homem que nos levava por um caminho desconhecido para casa
E que partia o pão. E eu vi que era ele
Que partia
O pão.

      Deu-se um milagre na minha vida. Comprei e estou a ler um livro de Daniel Faria

Daniel Faria

Se acender a luz
Não morrerei sozinho.

Edward Hopper











      Intitulado Shirley: Visions of Reality, o filme de Gustav Deutsch traz à realidade 13 pinturas de Edward Hopper contando a história de um personagem fictício cujos pensamentos, emoções e contemplações nos permite observar uma era da história americana.
      As reconstruções levam as obras bidimensionais de Edward Hopper à realidade, mantendo, ao mesmo tempo, o nivelamento das pituras originais. O filme apresenta as obras mais destacadas de Hopper como "New York Movie" (1939), "Office at Night" (1940), "Hotel Lobby" (1943), "Morning Sun" (1952), "Woman in the Sun" (1961) e "Chair Car" (1965).

Pedro César Alcubilla

Troco
cem amanheceres
que guardo
no fundo
da bolsa
por um instante
com ela.
Porque é pouco
sempre.
Porque me transborda.

  Cambio
  cien amaneceres
  que guardo
  en el fondo
  de mi bolsa
  por un instante
  con ella.
  Porque siempre
  es poco.
  Porque me desborda.

     Os poemas simples não valem menos.

Hilda Hilst - Dez chamamentos ao amigo

Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta

E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido

Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro

Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.


    Dois, à procura da beleza.

Afifa Aleiby











      Afifa Aleiby (born 1952, Basra) grew up in a family devoted to culture and the arts where she painted from an early age. She studied at the Institute of Fine Arts in Baghdad and worked as an illustrator for the Iraqi press. In 1974, she left Iraq for the Soviet Union to study at the Surikov Institute in Moscow.
      In 1981, unable to return to Iraq due to the political situation, she moved to Italy and later to Yemen, where she taught at the Institute of Fine Arts in Aden. Aleiby has contributed to cultural activities in support of the Iraqi and international democratic movements, and in the struggle against terrorism, racism, war and dictatorship. She has participated in numerous art exhibitions, from Baghdad and Moscow to Yemen, Italy, Syria, Lebanon, England and the United States. Aleiby has been living and working in the Netherlands since the mid 1990s.

                                                 from, Courage in Creativity

João Luís Barreto Guimarães - As cadeiras

À aula de
quarta-feira assistiram 13 alunos e
27 cadeiras. Em resumo: a sala cheia.
Quando a
lição terminou os 13 alunos partiram e
acto contínuo contei 20 casais de cadeiras.
Às aulas que tenho dado nunca faltam
as cadeiras
ficam a ouvir-me caladas
(as costas muito direitas).
É bom de ver que as cadeiras entendem
tudo à primeira
parecem bem mais maduras (mais
pés
assentes na terra).

      O poeta nasceu a 3 de Junho de 1967, no Porto. Vive em Leça da Palmeira. Licenciado em medicina, é especialista em cirurgia plástica, reconstrutiva e estética no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia. 
      Nos versos de João Luís Barreto Guimarães as coisas aparecem como se ali tivessem encalhado, presas de uma atenção meticulosa, de aranha, alimentando-se com uma paciência funesta. 

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