Rebecca Wolff - You are perfect for me

because you’re psychic
no one else could understand me
the way you

do and

I say
Drink Me

I say it to you silently
but it calls forth in me

the water for you
the water you asked for

   Tradução:

Tu és perfeito para mim

porque tu és adivinho
ninguém mais me poderia entender
da mesma forma que tu

me entendes e

eu digo
Bebe-Me

eu digo-to em silêncio
mas dizê-lo invoca em mim

a água para ti
a água tu pediste

António Reis

Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz torna mais belo
e mais útil
cada objecto.

      O despojamento triste.

Fernando Camilo Ferreira

a terra só atraiu a lua
no preciso instante em
que a maçã caiu
na cabeça de Newton

e no entanto
a maçã não caiu
na cabeça de Newton

caiu na terra

a cabeça de Newton estava lá por acidente.

Antonio Orihuela

Cada vez mais, vejo gente
com uma venda
a tapar-lhes os olhos.

Até já vi gente que
afastando-lhes um pouco a venda

a voltaram a colocar correctamente.

Macyn Taylor playing "Standing in My Shoes" by Leo Kottke.



Like a stone gone to water
I can't help but see
That another man's love means more to you
Than the love you stole from me.

There's no good in knowing
That I was to blame
He's good for you but let me explain
He's twice the price you've already paid.

But it's alright with me
Just wait for the chain
And we'll be back together
And it can't be the same.

      Desabafos em azul.

Manuel Bandeira

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Ana Cristina Cesar - Este livro

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

      Ana Cristina Cesar viveu entre 1952 e 1983, em Rio de Janeiro. Suicidou-se aos 31 anos.

Ana Cristina Cesar - Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto.

Elke Wassmann



O segundo parto


O jardim do pecado e da virtude.


O palco


A espera


Eva e Penélope


O resumo

Elke Wassmann nasceu em 1937, em Kiel, na Alemanha. 

Nikolai Zaitsev



O progresso


O trabalho


O tempo


A viagem


O Progresso II

Nikolai Zaitsev nasceu em 1956, em Dresden.

Anne Wiazemsky



      No cinema, não há memória de ninguém ter amado um burro como Anne Wiazemsky amou Balthazar. O filme, “Au Hasard, Balthazar”, realizou-o Robert Bresson, inspirando-se no “Idiota” de Dostoievsky. Balthazar, mais jumento que rei mago, passa pelas sete cruéis provações a que chamamos pecados capitais. À ascética menina e ao burro de focinho branco consola-os uma lenta e cândida ternura e o filme é um dos mais belos que os meus olhos já viram.
      Do burro não sei, mas sei que todos queriam a menina. Em 1965, a adolescente Anne Wiazemsky, neta do escritor católico François Mauriac, foi escolhida por Bresson por ter um talento sublime: nunca ter representado antes. A conjugação da sua reservadíssima beleza com uma voz capaz de encher uma catedral despertou em Bresson um método possessivo e integral: durante as filmagens não lhe permitiu que saísse um segundo do seu raio de visão e forçava-a a dormir na sua cama. Anne rechaçou-o quando Bresson se propôs chegar a essa húmida abjecção chamada beijo na boca.
      Veio então Godard às filmagens. Apaixonaram-se. Anne tinha 19 anos e queria estudar filosofia em Paris. Ele tinha 37, acabadinho de se separar de Anna Karina. Era um romance impróprio. Anne contou ao avô. Em Paris, nesse tempo, exibiam-se todo o tempo todos os filmes. Mauriac e a neta foram ver “A Bout de Souffle”. Mauriac achou o filme admirável e disse à neta que seria uma honra ter Godard como neto. Ela contou-lhe e ele, comovido e com aquela generosidade que um ego inflamado municia, disse, com originalidade, que era uma honra ter Mauriac como avô. Na única nota de rodapé da sua vida, Wiazemsky sublinha: Godard gostava sempre de ter a última palavra.
      Godard filmou “La Chinoise” e deu a Wiazemsky a personagem de uma militante maoista, antecipando o Maio de 68 que logo chegou. Anne aborreceu de morte ler Marx, Engels e o velho Mao. Mas doeu-lhe mais que Godard, militante furioso, quisesse que todos os gaullistas, o que incluía o avô, fossem fuzilados – entre aspas, disse ela – enquanto Mauriac, magnânimo, achava que os arroubos de Godard eram só pecados desse resto de juventude que aflige quem chega ao fim dos trinta anos. Não admira que, os olhos num e os olhos noutro, Wiazemsky tenha acabado por escolher os livros contra os filmes. Desistiu dos dois, agora.


      Publicado no Expresso, sábado, dia 21 de Outubro.

Uma forma



      Se o outro, o saudoso, o insofrido, o cartesiano, o cerebral, partisse, eu seria tranquilo, álacre, intuitivo, leve. Talvez a felicidade tivesse outra forma. Uma forma. Mas o outro continuaria a ser o outro, e eu não seria eu.

      in, xilre

A metáfora

      Talvez não existisse outra metáfora mais cristalina: duas pétalas da mesma flor. Assim os via.

      in, xilre

Joan Baez Induction Acceptance Speech - 2017 Rock Hall Inductions



      A mulher em quem Deus pôs na voz um pedaço de céu e se tornou um orgulho para a minha geração. Sobretudo, por não desistir de lutar por um mundo melhor.  

Alejandra Pizarnik - apenas um nome

alejandra alejandra
por baixo estou eu
alejandra

      O nome em nós.

Adília Lopes - Memórias

Quando tinha 12 anos, fumava Ritz, punha Eau Verte de Puig, ouvia Cat Stevens,
escrevia poemas num caderno cor-de-laranja comprado em Bruxelas.
Estava apaixonada e não era correspondida.

      Sra. Adília, eu ouvia o Nelson Ned e fazia lista de palavras bonitas: tangerina, âmago, chilrear, inusitado, titubear, pungente, tibieza...

Álvaro de Campos

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida…
Sou isso, enfim…
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

A. M. Pires Cabral

Se algum dia alguém chegar a ler
este dizer agreste,
provavelmente pensará: que pálida lanterna;
não é deste metal que a luz é feita.

Calma. Pois não.

Mas quem assiduamente
visita os desvãos onde a noite se acoita
não precisa de mais que o clarão desta treva,
desta cegueira sem cão e sem bengala,
para no escuro rasgar o seu caminho
e nele ir progredindo às arrecuas.

Anna Silivonchik











Alguns leitores do blogue devem estar cansados deste tipo de ilustrações. Eu tenho um fraquinho por elas. 

Cláudia R. Sampaio

Tragam-me um homem que me levante com
os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas
novíssimas nuvens em pé.

in, ver no escuro, ed. tinta-da-china

Daniel Faria

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.

      Ah, Daniel... "Como é estrangeiro o sossego de quem não espera recado."

Rui Pires Cabral

Antes não nos pesava
o passado, colhíamos os dias
ainda verdes, a frescura da sua polpa
na vontade dos nossos dedos.
Depois vieram os sinais
dos primeiros cansaços sem remédio,
a noite fincou-se nas pedras,
fez-se de estorvos.
Aquilo que sobrou de ti
cabe-me nos bolsos
e é pouco para as minhas mãos.

     Os 'leftovers'.

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