Marin Sorescu

Todos os museus têm medo de mim:
Sempre que fico o dia inteiro
Diante de um quadro
No dia seguinte anunciam
O desaparecimento desse quadro.

Todas as noites me apanham a roubar
Noutras partes do mundo,
Mas eu nem ligo
Às balas que me assobiam ao ouvido,
E aos cães-polícia que já conhecem
O cheiro das minhas pegadas
Melhor do que os namorados
O perfume da amada.

Falo em voz alta com as telas
Que põem em perigo a minha vida,
Penduro-as nas nuvens e nas árvores
E recuo para obter perspectiva.

Com os mestres “italianos” podes facilmente conversar.
Que ruído de cores!
É por isso que sou logo apanhado com eles,
Visto e ouvido de longe,
Como se tivesse papagaios nos braços.

O mais difícil é roubar Rembrandt:
Estendes a mão e encontras a escuridão —
Ficas apavorado, os seus homens não têm corpo,
Apenas olhos fechados em adegas escuras.

As telas de Van Gogh são loucas,
Rolam e dão cambalhotas,
Tens de prendê-las bem
Com ambas as mãos,
Pois são sugadas por uma força lunar.

Não sei porque é que Breugel me faz chorar,
Não era mais velho do que eu,
Mas chamaram-lhe velho,
Porque sabia tudo quando morreu.

Procuro aprender com ele,
Mas não posso conter as lágrimas
Que escorrem nas molduras douradas
Quando fujo com as estações debaixo do braço.

Como vos disse, todas as noites
Roubo um quadro
Com uma perícia invejável.
Sendo o caminho muito longo,
Sou finalmente apanhado,
Chego a casa a altas horas,
Cansado e rasgado pelos cães
Trazendo comigo uma reprodução barata.

Carson McCullers

      ...o amor e a qualidade do amor é decidido apenas pelo próprio amante.

      É por esta razão que muitos preferem amar a ser amados. Quase toda a gente quer ser o amante. E a verdade nua e crua é esta: no íntimo, o facto de ser amado é intolerável para muita gente. O amado teme e odeia o amante, e pela melhor das razões. O amante quer sempre mais intensamente ao seu amado, ainda que isto lhe cause somente dor.

Maria Sousa

a porta é só uma porta
mas quarto a quarto vou fechando
o mundo

é a minha história que conto

boa noite, boa noite
 
amanhã conto-te o resto
se for capaz de me lembrar

Auguste Rodin - A Queda de Ícaro



Mas, Senhor, que eu não desista da luz.

Albano Martins

A sensação que tens
é de que tudo
quanto dizes já o leste
noutros livros. Mas
depois consideras: também
o sol e os pássaros
repetem todos os dias
a mesma canção.

Alejandra Pizarnik

E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta
a cor do tempo num muro abandonado.

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.

Manuel de Freitas

Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.

Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida — chamemos-lhe
assim — separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.

      É preciso aceitar, em vivência possível, a condição.

The hang drum



Mumi e o som que é parto da beleza. O tema é dedicado ao verão e à mãe.

Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
o suor os traz consigo da memória,
que não tenho na pele poro através
do qual eles não procurem sair quando transpiro.

A pele é o espelho da memória.

            O poema é de Luís Miguel Nava

Kim Galina










Pintor russo nascido em 1964.

Hans Magnus Enzensberger

Falar é fácil.

Mas não podemos comer palavras.
Então coze pão.
Cozer pão é difícil.
Então faz-te padeiro.

Mas num pão não se pode viver.
Então constrói casas.
Construir casas é difícil.
Então faz-te pedreiro.

Mas no cimo de uma montanha
Não se podem construir casas.
Então move a montanha.
Mover montanhas é difícil.
Então faz-te profeta.

Mas os pensamentos não se ouvem.
Então fala.
Falar é difícil.
Então torna-te no que és
e continua a murmurar para os teus botões,
criatura inútil.

Mário Cesariny

tudo no teu sorriso diz
que só te falta um pretexto
para seres feliz

uma querela talvez chegasse
ou um pequeno pastor que passasse
na estrada, com suas ovelhas

um riso, um pormenor
que no momento se pousasse
e o tornasse melhor

eu
vou pensando em coisas velhas
-sem sombra de desdém!-
na vida
naquele lampejo fugace
que o teu sorriso já não tem

e que é do passado
porque a nossa grande sabedoria
não soube tratar ente tão delicado

e declina, o dia

o pequeno pastor já não vem.

Vasco Gato

não se sai do abismo,
aprende-se a sua linguagem

Old Postcards



 
 














Assim se imaginava no final do séc XIX o ano 2000.

Vasco Gato

colher
dos ramos altos
sem saltar
o fruto sereno
da tua passagem
— como?

      Poema absoluto do Vasco Gato sobre o mistério da sublimação e do seu maior ofício: o gesto. O gesto de colher, de receber na medida certa da intenção (a nossa e a das próprias coisas); o gesto que desaparece para dar lugar ao fruto; o gesto de ter escrito — o "mover de mão" —; o poema — gesto e fruto ao mesmo tempo; o gesto de ter acabado de o ler pela primeira vez; o gesto de repetição; a pergunta — gesto de empreender a percepção do que ainda não existe; a espera — gesto do tempo; o tempo — gesto de Deus.

      Análise de José Anjos

Eugénio de Andrade

E de súbito desaba o silêncio.

É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.

Vasco Gato

quando te beijo
é só a forma de os meus lábios dizerem que sim
e de os teus lábios dizerem que não
que não houve tempo antes de nós.

Gerrit Bruins

      

      Pelo que se lê, o famoso Chateau de Jehay na Bélgica passou a ter anualmente menos visitantes. Estudado o problema, a estratégia passou por convidar o escultor holandês Gerrit Bruins para decorar os jardins. O nu arte deixa de o ser quando está ao serviço de interesses. Talvez sejam deusas.  






Carl Jackson - The Little Mountain Church



There's a little mountain church in my thoughts of yesterday,
Where friends and family gathered for the Lord,
There and old fashioned preacher, taught the straight and narrow way,
For, what you call the congretation, could afford.

Dressed in all out Sunday best, we sat on pews of solid oak,
And I remember how our voices filled the air,
How mama sounded like an angel, on those high soprano notes,
And when the roll is called up yonder, I'll be there.

  Looking back now, that little mountain church house,
  Has become, my life's, corner stone,
  It was there in that little mountain church house,
  I first heard the word, I've based my life upon.

At the all day Sunday singing, and dinner on the ground,
Many were the souls that were revived,
While my brothers and my sisters, who've gone on to glory land,
Slept in piece in the maple grove nearby.

      O melhor da América é a cultura popular.

António Lobo Antunes

      Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze táxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.

Rui Costa

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.

    É crime. Não se pode desamar alguém quando se ama.

Francis Nacion













Pintor nascido nas Ilhas Filipinas.

Vasco Gato

Estou com a idade pousada nas mãos.
Explico-me com dedicação aos berços fundos
onde cada coisa dorme o seu medo de morrer.

Há na tristeza um perigo de terminar:
o eterno outono parece belo
a quem perdeu todas as sementes.

Pergunta-se um nome e ninguém responde.
Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?

Álvaro de Campos

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem duvida quem não queria nada -

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

Rui Pires Cabral

Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.


      Sr. Rui, pois não.

Tondela - Mensagem de apoio de Marcelo Rebelo de Sousa



  O Presidente da República esteve em Vila Nova da Rainha, localidade onde um incêndio fez oito mortos e cerca de quatro dezenas de feridos. Acusado de populismo, acusado de não ter o perfil de presidente, uma coisa é certa: embora tenha batido todos os recordes em Belém nas audiências que concede a partidos, empresários, associações, banqueiros, sindicatos e afins, com divulgação prévia ou à margem da sua agenda oficial, o grande interlocutor do actual Presidente é o povo na rua. Populismo? Não. Proximidade.

      A localidade situa-se a 8 kms de onde vivo. Eu próprio presenciei a sua entrada numa habitação a fim de consolar familiares. Não estamos habituados a este tipo de fazer politica. Emocionei-me ao ver o video.

sei que nunca viste o oceano,
que nunca olhaste a onda sobre a onda,
que nunca fizeste castelos para o mar ser forte,

mas sei que já viste o coração das coisas,
que já tocaste a ferida nos nossos braços,
que já escreveste para sempre o nome da terra.

por isso te digo que vou levar-te o mar
na concha das minhas mãos, azulíssimo,
para que nele descubras o meu nome
entre os seixos os búzios os rostos que já tive.

      Poema de Vasco Gato

Myrkur - I riden så



A Silibrand körde uppå höga loftessvala
O Silibrand hurried to the top of the mound
Allt under den linden så gröna
All under the linden so green
Där fick han se sin dotter i lunden fara
Then he saw his daughter wander in the grove
I riden så varliga genom lunden med henne
Ride gently through the grove with her

A välest mej, välest mej, vad jag nu ser
O woe is me, woe is me, what do I behold
Allt under den linden så gröna
All beneath the linden so green
Jag ser min dotter hon kommer til mej
I see my daughter, she is coming to me
I riden så varliga genom lunden med henne
Ride gently through the grove with her

A Silibrand fämnar ut kappan så blå
O Silibrand spread out his cape so blue
Allt under den linden så gröna
all under the linden so green
Där föder hon två karska svenbarnen på
Upon it she gives birth to twin sons
I riden så varliga genom lunden med henne
Ride gently through the grove with her

Min fader skall jag giva min gångare grå ”
I shall give to my father my grey horse
Allt under den linden så gröna
All under the linden so green
Som han skall rida till kyrkan uppa
Upon it he shall ride to the church I riden
så varliga genom lunden med henne
Ride gently through the sacred grove with her

      A tradução possível.

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