Francis Alÿs - Sometimes Making Something Leads to Nothing



      Brilhante. Se vives numa sociedade capitalista tens que lhe dar lucro. Não aprendes na escola para ser feliz mas para dares de barato a tua excelência. Não tens filhos para ser feliz mas para reproduzir um novo ciclo a alguém. Não consomes para seres feliz mas para manteres os lucros de outro. Não corres por ti mas para cumprires os deveres com o teu dono. Entra palhaço e si palhaço do teu velho circo. Até que um dia pegas num bocado de gelo e descobres que de pouco te vale viver. Falta ainda meio minuto, foge.  

Something - Cover by Avonlea & Sina




      No original dos The Beatles, ainda hoje é notável o começo desta canção com bateria seguida do solo inicial de Harrison. Umas décadas mais tarde, McCartney alterou o que estava feito usando o instrumento que Harrison usava com frequência quando estavam juntos. Pelos vistos, essa homenagem pegou e as novas gerações estão a usá-la nos covers que vão fazendo. É o caso deste video onde todas as partes são interessantes, sobretudo a bateria. Muito belo.

Jovan Hristic - Naquela noite juntaram-se todos na mais alta torre


Naquela noite juntaram-se todos na mais alta torre,
Astrónomos, matemáticos e um dos magos da Síria,
Para lerem nas estrelas a glória do Rei dos Reis
E demonstrar a sua imortalidade com a ajuda da geometria.

Antes do nascer do dia, menearam as cabeças em concordância
Com as suas interpretações. A resposta das estrelas
Foi positiva. As trombetas anunciaram
A glória do Rei dos Reis sob o sol nascente.

No pálacio, com a mesa posta para o banquete, eles são esperados
Por aqueles sobre os quais as estrelas se pronunciaram esta noite
E cujo futuro transborda agora como vinho novo
Guardado nos cálices dourados preparados para os brindes.

Só alguns jovens, recentemente especializados em geometria,
Não se mostraram totalmente convencidos com o que foi lido nas estrelas,
Pois as estrelas respondem sempre aos humanos,
Mas a que questão só elas mesmas sabem.

Ernesto Arrisueño












Ernesto Arrisueño nasceu em Lima, Peru, em 1957.

Ellery Akers - As duas palavras que são uma prece


Uma coisa sabes quando as dizes:
por toda a terra há gente a dizê-las contigo;
uma criança proferindo-as quando a apreensão a domina,
uma mulher recitando-as sobre um berço num hospital.
E se apanhares um táxi que vá por Tenderloin:
a uma luz vermelha, um homem com um gorro,
fios de lã desenredando-se ao longo do rosto, bate no vidro;
e diz, Por favor.
No momento em que ouves o que ele diz
a luz muda, o táxi afasta-se
e tu não voltas atrás, sabendo contudo
que alguém acabou de te suplicar tal como tu suplicas.
Por favor: duas palavras tão breves
que tanto se podem perder no ar
como flutuarem - como penas que são - até chegarem a Deus,
batendo e batendo, e finalmente
caindo na terra como chuva,
como pepitas de gelo, embebendo um ramo negro,
recolhendo-se nos esgotos, infiltrando-se no solo,
e tu caminhas com este tempo todos os dias.

Il Barbiere di Siviglia - Largo al factotum, Peter Mattei



      O Barbeiro de Sevilha de Gioachino Rossini encabeça a lista de todas as comédias em forma de ópera. Muito além do famoso "Figaro cá, Figaro lá", esta obra-prima traz um impecável libreto absolutamente conectado com a música ideal, cheia de ritmos marcantes, melodias irresistíveis e situações muito engraçadas. A ópera conta a história de Fígaro, um barbeiro que faz de tudo na sua cidade: arranja casamentos, ouve confissões, espalha boatos, enfim... um verdadeiro prodígio de imaginação. 

Francisco José Viegas


Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reonhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.

Antonio Orihuela


Cada vez mais, vejo gente
com uma venda
a tapar-lhes os olhos.

Até já vi gente que
afastando-lhes um pouco a venda

a voltaram a colocar correctamente.

Thomas Danthony


Thomas  Danthony  Tutt Art

Thomas  Danthony  Tutt Art

Os espaços

Julia Hartwig - O manuscrito


Na casa onde nasceu Beethoven
pode ver-se, exposto numa vitrine, um texto do compositor escrito à mão
cheio de rasuras e correções.
É a carta em que pede a um poderoso príncipe que aceite
a sinfonia que acaba de concluir.
Nenhuma composição deste génio
mostra no papel marcas de um esforço idêntico ao que transparece nesta carta,
dirigida ao soberano de um pequeno Estado de que hoje já ninguém se lembra.

Fernando Luis Chivite - Apontamentos para um manifesto futuro


Sabemos demasiadas coisas.

Sabemos tantas coisas que estamos presos
pelas coisas que sabemos.

Há armas que angustiam
quem as possui. A razão tem cárceres.

Sai daí, sê diurno. Não interrompas
a luz. Apaga a tua marca.

Janis Joplin - Cry Baby



      Aprendi a viver como tu cantas sem esquecer que é perigoso viver como tu viveste. Nunca conjugo o verbo amar no pretérito mas nunca consegui rir como tu rias. De que parte me esqueci? És, um mestre.  

Olá, Janis!



      When I sing, I feel like when you're first in love. It's more than sex. It's that point two people can get to they call love, when you really touch someone for the first time, but it's gigantic, multiplied by the whole audience. I feel chills.

             Janis Joplin

Zbynek Hejda - Depois da morte do meu pai


Depois da morte do meu pai, tive um sonho:
estou em casa, sozinho, a campainha toca,
eu vou abrir a porta.
O meu pai está ali,
com o seu sobretudo, de chapéu,
sorrindo suavemente como sempre, prestes a entrar.
Mas depois pergunta-me se a mãe está em casa.
Esta pergunta é como um nó
que me aperta a garganta,
um precipício...
O meu pai ficou assim muito triste,
ele sabia a resposta,
eu não consigo descrever a minha angústia.
A mãe não estava em casa.
Ela que sempre aqui esteve -
mas, desta vez, saíra só por um instante
e estaría de volta dali a nada...
A sua ausência fatal significava porém
que o meu pai nunca mais
haveria de regressar. 

Quarteto 1111 - Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas



É por aqui que se começa
Pelas palavras simples
Recusando a amargura
Nas margens do poema
Pelas pessoas vivas

É por aqui que se começa
Pela fúria de começar
Com a voz em liberdade
Sem muralhas no olhar
Cantando pessoas vivas

É por aqui que se começa
Pela fúria de começar
Usando palavras simples
Cantando pessoas vivas
Ensinando-as a pensar

Quando percorro as margens deste rio
Jogando letra a letra, verso a verso
As idéias que hora a hora, dia a dia
Me repetem, me ensinam
O caminho do processo
Hora a hora, dia a dia, verso a verso...

Quando escrevo nas paredes o teu nome
E sinto intensamente à flor da pele
A estranha sensação de quem encontra
Esse nome, o teu nome
Voando no papel
O nome do meu hotel, liberdade...

Quando passo pela ponte deste rio
A quem também chamei de Rio Dourado
E sinto intensamente a alegria
Me encontro, e renasce em mim
O canto da verdade
O espelho da verdade, que me invade...

E parto a pensar no meu regresso
E volto a pensar na despedida
Acordo no país a que pertenço
E aprendo, e repito
A palavra proibida
A palavra esquecida, liberdade.

Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas é o segundo (e último) álbum de originais da banda portuguesa Quarteto 1111. Com uma sonoridade próxima do rock progressivo-sinfónico, a lembrar King Crimson, Renaissance ou Jethro Tull, foi gravado em 1974 e lançado em Janeiro de 1975. Em 2008, conheceu uma edição em CD, na colecção "Do Tempo do Vinil".
Composto por duas faixas (exigência do vinil), possui uma estrutura baseada nas cinco partes nomeadas no título. Cantamos Pessoas Vivas, que abre e fecha o álbum, parte de um poema de José Jorge Letria a que se juntam versos de José Cid (que aqui surge muito melhor que habitualmente), autor de todas as restantes letras e melodias do LP. Além de Cid na voz e teclas, a formação do Quarteto na altura da gravação incluía Mike Sergeant (baixo e guitarras), Vítor Mamede (bateria) e António Moniz Pereira (guitarras).
Musicalmente inovador, experimental, fresco, o álbum reflecte o contexto do 25 de Abril, abordando o sentimento de alegria e esperança vivido após o derrube do Estado Novo. Na opinião de alguns, este é o melhor trabalho de música ligeira em Portugal.

Igor Estankona


Um ramo oscilou levemente
mas o pássaro que o mundo esperava não está,
as nuvens vieram
mas não trouxeram a chuva que a terra desejava,
uma mosca caiu
mas o peixe que o lago esconde não veio à superfície.

Assim te espero eu
fazendo cáculos e mais cálculos.

Ouve-se a música
mas não há nenhum bailarino nesta sala vazia,
um perfume expande-se
mas as macieiras não estão ainda em flor,
deitei-me com mulheres
mas não se desfez a imagem do coração.

Assim te espero eu
procurando-te em qualquer sinal.

Izet Sarajlic - Desde há tempos


Desde há tempos
que não me interessa em absoluto a poesia.

Interessa-me a vida.

Os piores lugares em poesia são, na realidade, a poesia.

Assim que a vida irrompe na poesia,
os versos, quase sem a intervenção do autor,
convertem-se em poesia.

Daria Petrilli







 




O homem e a natureza.

Fouad Rifka - Profissão


- Qual é a tua profissão?
- Pescador.
- E que pescas tu?
- Baleias.
- E onde estão as baleias?
- Nos mares onde as ondas são vulcões.
- Aí não há cordas nem rochas, só remos destroçados,
   e os faróis são mais profundos do que o silêncio.
- Eu sei.
- E apesar disso abandonas as praias?
- O país do poeta está no perigo.
- Ou na loucura.

Bill Knott - Errado


Quero ser mal interpretado;
isto é,
interpretado a partir da tua perspectiva.

Malena Mörling - Quando eu vivia perto do oceano


Quando eu vivia perto do oceano,
por uma ou duas vezes - de súbito -
quando não estava à espera,
quando estava a pensar em qualquer outra coisa,
eu olhei

e à luz do sol
através das cabeleiras verdes das árvores
vi o oceano.
Mas não foi a água,
foi algo de completamente diferente
que eu não conseguiria nomear.

Rokiczanka - Wyszłabym za dziada





Już mi się doprawdy panieństwo sprzykrzyło,
Wyszłabym za dziada, żeby się trafiło. 3x

Oj, córuś, oj, córuś, nie wychodź za dziada,
Ni na dzień, ni na noc on ci się nie nada. 3x

Matulu, dajże mi Jasieńka mojego,
Kocha mnie, młody jest i ja kocham jego.

Jeść mu ugotuję, buzię ucałuję,
Pościelę łóżeczko jak pieścidełeczko. 2x

Myślisz ty, córuniu, że za chłopem dobrze.
Za chłopem trza robić, aż się skóra podrze. 3x

Matulu, matulu, co wy to gadacie?
Wyśta chłopa mieli, całą skórę macie. 3x

      O problema é saber o que tudo isto quer dizer! Pelo Google Tradutor trata-se de uma canção de amor de camponeses, onde uma jovem que tem de escolher noivo, tenta confirmar se ele é mesmo trabalhador. Entretanto recusa um pretendente rico.

iznotmeizyou




A arte sugere.

Cristina Morano - Vergonha


O número de filhos da puta
aumenta cada dia, mas pior
é o número ainda maior dos tontos.
Eu conto-me entre os segundos,
às vezes o meu pai pergunta-me
se vou fazer alguma coisa a respeito disso;
não costumo, porém, responder-lhe,
limito-me a olhar a tv
sentada em frente da sua cara.
Deveria dizer-lhe que tem razão,
que as pessoas me dirigem o olhar
como se a uma espécie rara de animal,
como se se sentissem confortáveis
no papel do delator.
Gostaria de fazer alguma coisa para mudar,
ser mais inteligente, fumar com elegância...
esse tipo de coisas que te tornam respeitável.
Mas, no fundo, nunca seria suficiente,
os pratos continuam a cair-me das mãos.

Carmen Ruiz Fleta - A mulher mais feia do mundo


A mulher mais feia do mundo
falava-me dos tratamentos faciais gratuitos
enquanto punha na minha mão um folheto
com a mulher mais bela do mundo.
Foi às 10 horas da manhã.
A mulher mais feia do mundo
deve entregar 500 folhetos diários
da mulher mais bela do mundo
para ganhar 587 euros por mês.
Ninguém olha a cara da mulher mais feia do mundo.
Ninguém se atreve.

Prince Harry and Meghan Markle exchange vows



      Inesquecível o modo como o príncipe Harry olha Meghan. Esse olhar encerra em si tudo o que o ser humano tem de melhor. É verdadeiro, e Deus está e permanece em tudo o que é verdadeiro.

Michiel Schrijver
















Novas e velhas telas do pintor das casinhas e dos pequenos barcos.

Isabel Nogueira

Tirou do bolso o canivete que a mãe lhe oferecera aos seis anos.
Acto naturalmente impróprio, a respeito do qual seria desnecessário
ajuizar.
Abriu-o, passou ao de leve os dedos pela lâmina, e descascou a maçã.

Os olhos nunca saíam do barco. Nem do mar.
A prática fazia-o retirar a casca à fruta sem necessidade de olhar.
Era tudo uma questão de hábito e de motricidade fina.

Leopoldo María Panero


É duro o trabalho do pesadelo,
                               é duro
arrastar de dia o carro das marionetas,
de noite; e ser uma delas
pela manhã, quando abrem os olhos
                                  para não ver
que a bailarina de corda que dança entre elas
move ela mesma a mola.

António Barahona - Peças de relógio


É noite
espero-te
fumo
como a chaminé dum hospital 

Escrevo
palavras que nadam num aquário
Tenho peças de relógio perdidas nas veias
Sou um colar violento ao teu pescoço de planta 

Fumo
e teço um manto de algas
para te cobrir ao menor sinal de chuva

O sangue flui
com os destroços e os ossos das horas 

O cigarro pega fogo à noite

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